Crônicas do cotidiano: 'Animals' ou eles não vão nos pegar
- Walmir de Albuquerque Barbosa
- 20 de ago. de 2021
- 3 min de leitura
O governo brasileiro dorme e acorda pensando em reformas neoliberais e conservadoras, mas, durante o dia, rola solta mesmo é a confusão política, a verborreia deletéria dos arautos do negacionismo via fake news, atacando as instituições da república, da democracia e tentando nos arrastar para o pântano desastroso do autoritarismo. Isso pode ser, também, a cortina de fumaça para os lobbies, os interesses escusos, as vontades sub-reptícias e passagens de boiadas em plena luz do dia e noite afora, iluminadas pelas labaredas da floresta em chamas.
No caso da Reforma do Imposto de Renda, o relator já modificou quatro vezes o parecer e tantas outras vezes o modificará antes de ir a plenário. As alterações feitas, cada vez mais, parecem absurdas. Em todas, uma certeza só: “a classe média, que recebe salário em folha de pagamento, vai se ferrar!” É o que dizem, em linguagem popular, os entendidos em Economia por trás das análises comportadas do mercado financeiro na mídia. Mas não é só isso! O Governo Federal precisa expandir a receita para não “furar teto”, mágica que coloca dinheiro novo, que não provém de receitas reais: jogo de mercado com títulos, compra e venda de títulos duvidosos, uso de divisas para controlar o câmbio, tudo para tentar superar a crise gerada pelo “fundamentalismo do mercado livre”, no dizer de George Soros, referindo-se ao 15 de agosto de 2008, data da declaração de falência do Banco Norte-Americano Lehman Brothers, anunciando o estouro da “bolha financeira” que atingiu todo o sistema financeiro mundial, dando início a um processo de falências múltiplas e à recessão econômica, que perdura até hoje. Mas o povo da jogatina não se emenda!
No caso brasileiro, chama a atenção na Reforma Tributária a proposição que promete taxar os dividendos de acionistas e os lucros dos grandes conglomerados financeiros e industriais, o imposto progressivo, existente em todas as nações civilizadas. Mas, vale lembrar que, além da “luta contra o comunismo”, “contra a reforma agrária” e “pela defesa da família e da propriedade”, a “luta contra a taxação dos lucros das empresas” era a quinta falsa bandeira dos golpistas para que o empresariado financista apoiasse o golpe militar de 1964. Portanto, quando se ameaça, novamente, com golpes militares e com quase todas as falsas bandeiras de antigamente, não é crível que se venha a taxar os lucros e os dividendos do capital financeiro, visto que se conhece, à soberba, que este sistema é poderoso e suas forças emergem dos rizomas globalizantes, mais fortes que os anteriores. Daí alguns analistas deduzirem ser essa proposta enviada ao Congresso Nacional o “bode posto no meio da sala”.
Pouco se sabe dessas coisas tão importantes, visto que a discussão dos destinos da economia numa sociedade complexa como a brasileira são difíceis mesmo e a mídia nem sempre consegue explicá-las, por razões diversas, sejam elas de boa ou de má fé. A música pode nos ajudar um pouco a entender coisas tão complicadas, mesmo que doídas.
Neste caso, proponho a “curtição” do rock alternativo, meio clássico, meio pop, eletrônico e progressivo, da banda inglesa Muse, que tem como temática as angústias do cotidiano das multidões oprimidas pelo capitalismo; mesmo pisando em ovos para não “acordar a polícia do pensamento”, como diz em um dos versos de “Resistance”; ou, ainda, com a canção inteira que incendiou o Estádio Olímpico de Roma em 2013 e espalhou-se como rastilho pelo mundo: “Animals”, que faz alusão à crise do capitalismo financeiro em 2008 e, ao mesmo tempo, articula uma crítica à exploração neoliberal, que leva as pessoas ao desespero, tão atual em nossos dias. Autor: Dr.Walmir de Albuquerque Barbosa - Jornalista Profissional. Professor Emérito e ex-reitor da Universidade Federal do Amazonas. Manaus (AM), 20/8/2021.
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