Crônicas do cotidiano: “As Olimpíadas como retrato do mundo”
- Walmir de Albuquerque Barbosa
- 7 de ago. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 20 de ago. de 2021
As Olimpíadas sempre quiseram parecer uma ladainha aos deuses do Olimpo para agradecer o vigor humano, mas sempre foram, são e serão um retrato momentâneo do mundo na forma de espetáculo. A nossa Língua Portuguesa – para não esquecermos, muito honrada com a reabertura do seu imponente museu –, consagra três significados à palavra ladainha: “prece litúrgica”; outra, por analogia, “falação fastidiosa”; e uma terceira, do regionalismo brasileiro, “canto rogatório popular na abertura de uma roda de capoeira”, Dicionário Houaiss. A Ginasta Rebeca Andrade fez a sua ladainha com o “Baile de Favela” (MC João unido à “Toccata e Fuga”, de Johann Sebastian Bach); o Box, com as batidas do Olodum, para dar exemplos de cantos rogatórios dos atletas brasileiros. Portanto, com suas preces, com os seus falatórios e seus cantos rogatórios, as Olimpíadas fazem emergir nos espectadores os seus mais recônditos sentimentos, sejam de amor, fraternidade, solidariedade e alegria; ou sejam os mais estúpidos, como a indiferença, o ódio, o racismo, xenofobia e outros, a provar que a nossa adesão ao processo civilizatório ainda tem limites e divergências insanáveis. A ladainha aos Deuses do Olimpo, com o Barão de Coubertin (1863-1937), criador dos Jogos Olímpicos da era moderna, incorpora os valores Iluministas, o triunfo capitalista do século XIX e o eurocentrismo. Outros eventos, como as Exposições Universais, sem periodicidade definida, guardam, também, o formato padrão de grandes espetáculos, tais quais os que celebraram as conquistas reais, desde o Renascimento; alguns, lembrando, na origem, as versões de “pão e circo” da antiguidade clássica. O Espetáculo é sua forma, definição, essência e finalidade.
Guy Debord (1997), na obra “A sociedade do espetáculo”, nos diz que “o espetáculo é ao mesmo tempo o produto e o projeto do modo de produção existente. Não é um suplemento do mundo real, uma decoração que lhe é acrescentada. É o âmago do irrealismo da sociedade real. Sob todas as suas formas particulares – informação ou propaganda, publicidade ou consumo direto de divertimentos –, o espetáculo constitui o modelo atual da vida dominante na sociedade” (p. 14). E, para completar, logo mais adiante, nos diz: “no mundo realmente invertido, a verdade é um momento do que é falso”(p.16). Assim, fica claro para todos nós: os que estão nas Olimpíadas devem fazer crer que são os mais fortes dos mais fortes; os que souberam superar-se a si mesmo; os mais perfeitos entre perfeitos. Em razão disto, não pode haver contestação por que tudo é transparente, justo e correto; é o Olimpo! Esse retrato do mundo, apesar dos subterfúgios, revela-se ao desconstruir-se o discurso universal do “espetacular integrado”, outro conceito de Debord, para mostrar que as Olimpíadas são, hoje, propriedade “da organização consensual do mercado mundial, falsificado e garantido pelo espetáculo”(p.10). Todos parecem iguais, mas não são, basta olhar a história de vida dos atletas brasileiros para ficarmos cara a cara com a perversidade e com as desigualdades sociais. Nossos olimpianos, salvo aqueles dos “esportes mais nobres”, chegaram a esse falso olimpo como todos chegam ao mundo do mercado, como a sua força de trabalho na forma do “corpo são”, potência inata de talento e desejo incomensurável de superar sua condição material de vida. Para que não se percam pelo caminho, precisam ser “descobertos” por “olheiros”, que se assenhoram desses talentos e os repassam às organizações do mercado do espetáculo. Seguem, assim, a lógica do nosso tempo. Aos que conquistam medalhas e conservam a dignidade, nosso respeito, admiração, agradecimento e aplauso. No entanto, não esqueçamos: cada medalha conquistada, além de real pode ser, também, um soco no estômago da hipocrisia! Autor: Dr.Walmir de Albuquerque Barbosa - Jornalista Profissional. Professor Emérito e ex-reitor da Universidade Federal do Amazonas. Manaus (AM), 30/7/2021.
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