Crônicas do cotidiano: “Da maldade humana”
- Walmir de Albuquerque Barbosa
- 27 de ago. de 2021
- 3 min de leitura
Até os cinco anos de idade eu e meu amigo de infância brincávamos juntos na rua, fomos para o mesmo Grupo Escolar da cidade onde havia o “pré-primário” e íamos às mesmas festas de aniversário. Depois dessa idade, o meu amigo foi apresentando os mesmos sinais de seu irmão primogênito e a família iniciou o processo de seu confinamento, provavelmente, no mesmo quarto escuro e inóspito, localizado na lateral da casa, cujo único móvel parecia ser uma rede, que sabíamos mover-se pelo barulho dos “armadores” rangentes aos quais estava atada. E o pior, tudo parecia natural! As dificuldades físicas ou mentais, leves ou mais graves, eram tidas como castigo divino, que se incorporava ao processo iníquo das segregações sociais e entrava no sistema de pesos e medidas das sociedades, que faziam distinção de seus membros entre “capazes” e “incapazes”.
Queimados nas fogueiras como possuídos pelos “demônios”, passageiros das chamadas “barcas do inferno” que desciam sem governo nem rumo os rios encachoeirados da Europa, depois, “vergonha das famílias”, eram entregues aos asilos do abandono nas mãos do Estado, nem sempre provedor. Na segunda metade do século XX, com os avanços da ciência, das práticas médicas e das lutas pioneiras pelo fechamento dos Hospícios (lembro, no Amazonas, Silvério Tundes e Rogélio Casado), lentamente a linha do tempo foi consagrando conquistas para vencer a maldade, a ignorância e a estigmatização das pessoas com dificuldades físicas ou mentais, até chegarmos à plenitude dos direitos fundamentais dessa categoria de sujeitos com a Constituição de 1988 e a legislação complementar.
Eis que se nos aparece, vindo das profundezas de um mundo que pensávamos extinto, o gerente e preceptor dos novíssimos demiurgos, propalando maldades. Essas coisas, ditas de “cara limpa”, em público, parecem tratar-se de ignorância pessoal ou de uns poucos. Mas, a análise dos fatos nos leva a identificá-los como verdadeiramente são: atos ideológicos, calcados em ação de poder, portanto, político-ideológicos. Foi isso o que aconteceu com as manifestações do Senhor Ministro da Educação do Brasil, nas últimas semanas. Ele foi duro, ele foi cruel, porém foi sincero ao reafirmar suas palavras, dessa vez não usando a desfaçatez do “fora de contexto”, como dizem muitos para desqualificar a imprensa. Reafirmou que não admite a “inclusão escolar”, a qual chama de “inclusivismo”, ideologia esquerdista, tal como as demais, que ele abomina.
O Ministro expressa o pensamento do seu grupo de poder contra as práticas pedagógicas apoiadas nos fundamentos científicos, que melhoram o aprendizado e a interação social de crianças e adolescentes com necessidades educacionais especiais, sob a alegação de que tais crianças e adolescentes atrapalham o aprendizado das demais. Tal afirmação é de uma brutalidade sem tamanho, mas não é estranha. Provém da mesma pessoa que disse: a Universidade deve ser para poucos! E que “deu de ombros” ao problema daqueles que faltaram ao exame do ENEM-2020 e pedem, agora, isenção de pagamento da taxa de inscrição no ENEM-2021. Com esse subterfúgio, intenta garantir os critérios de meritocracia, privilegiando os que considera aptos a ocupar os melhores postos na estrutura social e de poder na República.
Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron estudaram isso e nos mostraram que “mérito” e “dons” são instrumentos de seleção e perpetuação das elites “proprietaristas”. Quando afirmam ser a Escola o espaço da violência simbólica onde essa mesma elite impõe o que deve ser ensinado, a quem e como deve ser ensinado, estão explicando e categorizando a realidade social, mas não estão, de modo algum, ratificando a barbárie do tipo “Aktion T-4”, sigla pavorosa que cognominava o programa de eugenismo e eutanásia, utilizado pelo nazismo para exterminar crianças e adultos com “deficiências físicas ou mentais”, “detectadas” pelos “médicos” do regime. Autor: Dr.Walmir de Albuquerque Barbosa - Jornalista Profissional. Professor Emérito e ex-reitor da Universidade Federal do Amazonas. Manaus (AM), 27/8/2021.
Posts recentes
Ver tudoO seminário ‘Marco Legal da Inteligência Artificial’ promovido nesta segunda, 20/3, pela FGV no Rio de janeiro contou com a participação...
O uso de ferramentas como Midjourney e deepfake, técnicas de inteligência artificial que vem sendo usadas para produzir desinformação,...
O Coletivo, no dia 25 de março de 2023, no programa "A voz trabalhadora", contou com a presença de diversos participantes e entre eles o...
Comments