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Crônicas do cotidiano: O paradoxo e nós mesmos

  • Walmir de Albuquerque Barbosa
  • 18 de fev. de 2022
  • 3 min de leitura

O paradoxo pode ser definido como aproximação de linguagens contraditórias que, ao mesmo tempo, guardam entre si uma lógica a ser levada em conta na comprovação possível. Na Matemática, travam-se batalhas seculares na busca de entendimento e elucidação dos paradoxos. Segundo o Dicionário Aurélio, o paradoxo é: “conceito que é ou parece contrário ao senso comum”. Nas Ciências Formais (Matemática, Lógica e Gramática) e nas Ciências da Natureza, é tratado dentro do quadro epistêmico de cada ciência. Na Filosofia e nas Ciências Humanas e Sociais, ganha outras dimensões ao envolver problemas que afetam a consciência, as ideias estabelecidas e pode até desdobrar-se em outros discursos, que são ou parecem ser opostos entre si.


A reflexão proposta aqui não tratará especificamente do “Paradoxo da Tolerância”, de Karl Popper (1902-1994), largamente discutido no Brasil, mas sobre outro feito do Filósofo da Ciência: o Princípio da Refutabilidade na Ciência, proposto pelo autor na década de 1930 e que deveria ter contribuído, à época, na negação do pensamento fundante da intelectualidade brasileira do final do século XIX e início do sec. XX, que tomou certas teorias científicas como “verdades incontestáveis” e que ainda subsistem em pleno século XXI. Foi com base no Princípio da Refutabilidade ou Falseabilidade que se tornou possível a contestação das práticas intolerantes e tidas como “cientificamente corretas” como o Higienismo, o Lombrosismo e o Eugenismo, que formaram a base das teorias de superioridade racial que nos levaram ao Nazismo e, no Brasil, primeiro ao “desejo de embranquecimento da raça” (política pública de imigração de povos brancos europeus e menosprezo aos índios, negros e mestiços, tidos como inferiores) e, depois, ao Fascismo Tupiniquim: o Integralismo.


Como se vê, essas teorias se fundiram à história, à medicina, à sociologia, à literatura, ao direito, à economia e à política; até o final da Ditadura de Vargas no Brasil, moldaram instituições e respaldaram Políticas de Estado; e até hoje não foram refutadas por completo. Foi esse pensamento da intelectualidade brasileira, da nossa elite econômica e política que, no passado, autorizou Euclides da Cunha (1866-1909) a chamar de sub-raça os nordestinos, a vaticinar que não se deveria investir na Amazônia porque a natureza era tão hostil que nada prosperaria e o homem perderia as suas qualidades. Foi esse tipo de pensamento que autorizou Oliveira Viana (1883-1951) a escrever a História do Brasil como quis, valorizando as elites; que deu, também, substrato ao fascismo brasileiro sob a liderança de Plínio Salgado (1895-1975), que já estava lá na foto da Semana de Arte de 22, esta invenção paulista, decantada por uns e vista por outros como embuste da alma brasileira, sempre à procura de superioridades. Estavam, ainda, no “verde-amarelismo” de Cassiano Ricardo(1895-1974), Plínio Salgado e Menotti Del Picchia (1892-1988). E reaparecem, agora, quase intatas, no ideário e nas práticas da extrema direita brasileira; além de frequentarem os livros escolares que não foram revistos, as questões do ENEM e letras de música, com naturalidade.


Portanto, nossa tolerância com a maldade, a desigualdade e os preconceitos não é paradoxal, é estrutural. Daí ser difícil para muitos entenderem o Paradoxo da Tolerância. E isso se deve ao arraigamento às ideias e práticas que ainda habitam a nossa formação, reforçando diferenças, elevando nosso status, nos “tornando iguais” aos que julgamos superiores. Assim, a ignorância vira verdade e encontra meios céleres de difusão, como a Internet. Escolas e Universidades precisam agir com firmeza nos seus espaços concretos de formação das novas gerações e da discussão de ideias mais “antenadas” que expliquem o mundo atual e que cheguem ao espaço público pelos meios disponíveis para servirem às boas práticas de vida. Errata: na Crônica “As perguntas e o caminho do nada”, onde se lê Tom Wolf (1930-1918), Leia-se Tom Wolf (1930-2018), com agradecimentos ao leitor que identificou o erro.


Autor: Dr. Walmir de Albuquerque Barbosa Jornalista Profissional. Professor Emérito e ex-reitor da Universidade Federal do Amazonas. Manaus (AM), 18/2/2022. *Toda sexta-feira publica no site EPCC suas Crônicas do cotidiano. Confira na obra" Trajetórias culturais e arranjos midiáticos" (2021) seu capítulo "Comunicação, Cultura e Informação: um certo curso de jornalismo e vozes caladas na Amazônia". Veja, também, sua entrevista no Programa Comunicação em Movimento 09 do grupo de pesquisa EMERGE- https://www.youtube.com/watch?v=kpu-HtV6Jws





 
 
 

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