Crônicas do cotidiano: “Pensando no amanhã”
- Walmir de Albuquerque Barbosa
- 14 de jan. de 2022
- 3 min de leitura
“Uma das grandes ironias de como as democracias morrem é que a própria defesa da democracia é muitas vezes usada como pretexto para a sua subversão. Aspirantes a autocratas costumam usar crises econômicas, desastres naturais, ameaças à segurança – guerras, insurreições armadas ou ataques terroristas – para justificar medidas antidemocráticas” (LEVITSKY & ZIBLATT, Como as Democracias Morrem, 2018, p. 94). Traduzido e publicado no Brasil no mesmo ano em que foi escrito e em que ocorreram as nossas eleições gerais para escolha de Presidente e Vice, Parlamento, Governos Estaduais e Assembleias Legislativas, despertou pouca atenção, sobretudo quando relacionado aos nossos impasses políticos ainda pouco definidos. Dizia mais a respeito das análises do que já vinha ocorrendo nos Estados Unidos da América do Norte (EUA) sob o Governo de Donald Trump, demagogo confesso que chegou ao poder pelas mãos do Partido Republicano e dos votos majoritários dos delegados no Colégio Eleitoral, na forma constitucional americana, em 2016. Nem os Americanos tinham, àquela altura, uma ideia do desfecho dos acontecimentos que estavam sendo gerados nos bastidores do governo Trump, com vistas a “pôr a pique” a mais longeva e tradicional democracia no mundo.
O Brasil sempre foi contemporâneo das formas de governo mais avançadas. Mesmo a Monarquia brasileira, salvo os primeiros momentos de autoritarismo das guerras intestinas de consolidação territorial e a adoção do escravismo, foi uma Monarquia Constitucional. O II Império foi um exercício de liberdades, permitindo às elites a formação das forças políticas de pensamento antagônico. O estigma militarista autoritário, herdamos da consolidação das nossas forças armadas e das Escolas Militares, com currículos calcados, inicialmente, no espírito napoleônico da Escola Militar Francesa e, mais tarde, acrescido por ideias Positivistas, gerando um caldo de impetuosidade guerreira e de intromissão nos negócios políticos, alimentando o equívoco de arvorar-se guardiã da ordem, da tradição, da propriedade privada e, portanto, do Poder Moderador, que nossas Constituições nunca lhes concederam, exceto no período de infortúnio dos Atos Institucionais da Ditadura. Daí, as quarteladas, a visão obnubilada de “inimigo interno” de facções mais politizadas de militares, todas as vezes que imaginam uma sociedade em risco.
O sistema de pesos e contrapesos que nos foi dado pela Constituição de 1988, apesar das nossas desigualdades socioeconômicas e de classes, garante um Estado Democrático de Direito, o que nos iguala, juridicamente, às grandes democracias do mundo. Como o voto é obrigatório para maiores de 16 anos, o Brasil expressa sua vontade política e legitima seus governantes em números expressivos de votos, só superados pela Índia e EUA, em eleições regulares, com urna eletrônica e apuração incorruptível. Mas isso não nos garante mais uma democracia saudável. As forças disruptivas, sobreviventes de vários momentos de nossa história, se reorganizam sob a influência de movimentos internacionais da Direita Radical para tentar impor um retrocesso, usando métodos diferentes: chegar ao poder pelo voto democrático, minar as instituições por dentro através de pequenos e, às vezes, imperceptíveis golpes, até mostrar a sua verdadeira face fascista, patrimonialista e falsamente moralista, consolidando, assim, o autoritarismo, que suprime as liberdades e instaura o pensamento único radical de direita. É um movimento universal, mas em comparação a outros países, o Brasil tem demonstrado avanços substanciais, que nos põem em perigo.
Teremos um ano eleitoral difícil. Espera-se “tolerância mútua” e “reserva institucional”, como pregam os autores da obra citada acima. Tais coisas só virão se tomarmos a decisão de influir civicamente. Não se trata do “falso patriotismo”, que prega o cancelamento dos contrários, mas da consciência nítida sobre o que não queremos viver de novo.

Autor: Dr. Walmir de Albuquerque Barbosa
Jornalista Profissional. Professor Emérito e ex-reitor da Universidade Federal do Amazonas.
Manaus (AM), 14/01/2022.
*Toda sexta-feira publica no site EPCC suas Crônicas do cotidiano.
Confira na obra" Trajetórias culturais e arranjos midiáticos" (2021) seu capítulo "Comunicação, Cultura e Informação: um certo curso de jornalismo e vozes caladas na Amazônia".
Veja, também, sua entrevista no Programa Comunicação em Movimento 09 do grupo de pesquisa EMERGE- https://www.youtube.com/watch?v=kpu-HtV6Jws
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