Crônicas do cotidiano: “Putin deseja uma nova Yalta”
- Walmir de Albuquerque Barbosa
- 11 de mar. de 2022
- 3 min de leitura
Mas ele não é um Josef Stalin, o Joe Biden não é o Franklin D. Roosevelt e Boris Johnson não é Winston Churchill. E a guerra da Ucrânia não é uma guerra. É, segundo o seu mentor, uma “Operação Militar Especial”, e quem pensar o contrário, se estiver na Rússia, pode pegar de um a quinze anos de prisão. Acontece nas fronteiras do capitalismo liberal em crise, de um lado, e, de outro, das Autocracias, marcadas pelo autoritarismo, pelo fundamentalismo religioso, pela pobreza, pelo Capitalismo de Estado, pelas bases militares e ogivas nucleares, heranças da história e da Guerra Fria. Essa, ainda, é uma guerra entre brancos. Não é como as inúmeras outras, acontecendo na Ásia e na África, que pouco interessam à mídia, como se os povos não pertencessem a esse mundo. Todas, mesmo acontecendo longe, abarcam-nos como parte do globalismo. O momento não espera muito, tanto é que o Deputado Paulista Arthur do Val, o “Mamãe Falei”, em “caráter humanitário” foi até a fronteira da Ucrânia e não viu a dor dos refugiados, mas, com seus olhos cúpidos e imorais, viu coisas que só “empolgam” mesmo alguns vermes da política brasileira, sempre dispostos a coisas que nem o Cão imagina. O Presidente brasileiro foi à Rússia para garantir os fertilizantes; porém, teceu tantas loas ao regime russo e à Putin como líder conservador cristão, que chamou a atenção do mundo. Tudo dentro do script das chamadas “Teorias Conspiratórias”, que reforçam o marketing político da reeleição. Heróis do nada, apesar de cada um, a seu modo, trazer a guerra para dentro de casa; e a confusão está aí rolando. Nas redes sociais, a tese da guerra como obra do “imperialismo americano” para humilhar a Rússia tem muitos adeptos entre brasileiros. É claro que o imperialismo sempre tem culpa, até porque ele aparece nas ambições de ambos os lados. O mais urgente é condenar todas as guerras, cruéis para todos, espelhando sempre a ganância de uns sobre as coisas alheias, além de atentarem contra o direito universal à soberania dos países constituídos como tal, buscando supremacias. Yalta, cidade situada na península da Crimeia, está de pé, com seus palácios e suas Datchas, onde a Corte Imperial Russa e altos dignatários da URSS passavam o verão, à beira do Mar Negro. Lá, os Grandes (líderes das nações vencedoras) dividiram o mundo entre si, ao final da Segunda Guerra Mundial. “Coincidência ou não”, o cenário vem sendo preparado por quem deseja nova partilha de poder mundial. Putin, em 2014, anexou a Península da Crimeia inteira, parte do território da Ucrânia, sob o pretexto de que a população de origem russa da região queria sua autonomia; e, desde 1783, a Crimeia pertenceu à Rússia e seu domínio durou até a dissolução da antiga URSS. A Rússia sempre foi potência militar e daí o seu imenso território, da Eurásia ao Pacífico. Como URSS conheceu avanços educacionais, científicos, tecnológicos e econômicos. Com a Queda do Muro de Berlim (1989), tudo que a Revolução Russa de 1917 expropriou da nobreza e da burguesia republicana, somada à fortuna construída como propriedade coletiva dos trabalhadores, foi novamente expropriada, agora por um grupo eufemisticamente chamado de “oligarcas russos”, liderados por Putin. Sobrou na mão do novo Estado Autoritário, o arsenal de guerra e suas ogivas nucleares não privatizadas, com os quais Putin pensa restaurar o Império Czarista Russo, mesmo sendo, hoje, um país de economia enfraquecida, disputando o décimo segundo lugar com o Brasil, entre as 20 maiores economia do mundo. Nessa desejada “Nova Conferência de Yalta”, quem sentaria à mesa? Se vier a ocorrer, será como farsa! Como nos disse K. Marx, n’ “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”: “tomam de empréstimo os seus nomes, as suas palavras de ordem, os seus costumes, para entrarem na nova cena da história sob esse disfarce venerável e com essas palavras emprestadas” (Editorial Estampa,1976, p.17).

Autor: Dr. Walmir de Albuquerque Barbosa
Jornalista Profissional. Professor Emérito e ex-reitor da Universidade Federal do Amazonas.
Manaus (AM), 11/3/2022. *Toda sexta-feira publica no site EPCC suas Crônicas do cotidiano. Confira na obra" Trajetórias culturais e arranjos midiáticos" (2021) seu capítulo "Comunicação, Cultura e Informação: um certo curso de jornalismo e vozes caladas na Amazônia". Veja, também, sua entrevista no Programa Comunicação em Movimento 09 do grupo de pesquisa EMERGE- https://www.youtube.com/watch?v=kpu-HtV6Jws
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