Cultura brasileira perde Thiago de Mello
- Eula D.T.Cabral
- 15 de jan. de 2022
- 3 min de leitura
A cultura brasileira perdeu no dia 14 de janeiro de 2022 um de seus maiores poetas: Thiago de Mello, autor do célebre poema (traduzido para vários idiomas): "Os Estatutos do Homem". Reconhecido tanto no Brasil, quanto internacionalmente, suas obras foram traduzidas para mais de 30 idiomas.
Thiago de Mello nasceu em Barreirinha, cidade amazonense, no dia 30 de março de 1926. Defensor da Floresta Amazônica, começou sua carreira acadêmica no curso de Medicina, mas trocou pela diplomacia na década de 50, sendo adido cultural na Bolívia e no Chile, carreira interrompida pelo golpe militar na década de 60. Foi preso e exilado na Argentina, Portugal e Chile, tendo que viver também na França e na Alemanha. Atuou na área jornalística, educacional e literária.
Em 1975, a Associação Paulista dos Críticos de Arte reconheceu sua luta pelos direitos humanos através de seu livro Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida.
Em 2021, ao completar 95 anos, a prefeitura de Manaus, capital do Amazonas, fez, em sua homenagem, a exposição virtual “Thiago de Mello 95 anos de vida, poesia e amor por Manaus”, celebrando sua obra e relação com a região amazônica. Também foi homenageado na 34º Bienal de São Paulo, que usou o verso ‘Faz escuro mas eu canto’ como tema do evento.

Imagem da Exposição Thiago de Mello 95 anos de vida, poesia e amor por Manaus. ____________________________ Os Estatutos do Homem, de 1977, de Thiago de Mello
Os Estatutos do Homem
(Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony
Artigo I.
Fica decretado que agora vale a verdade.
que agora vale a vida,
e que de mãos dadas,
trabalharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II.
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III. Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV.
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo Único:
O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.
Artigo V.
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.
Artigo VI.
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII.
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII.
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor. Artigo IX.
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha sempre
o quente sabor da ternura.
Artigo X.
Fica permitido a qualquer pessoa,
a qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.
Artigo XI.
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo.
muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII.
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.
Artigo XIII.
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade.
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem. Santiago do Chile, abril de 1964.
Publicado no livro Faz Escuro Mas Eu Canto: Porque a Manhã Vai Chegar (1965).
Saiba mais Exposição Thiago de Mello 95 anos de vida, poesia e amor por Manaus. Morre o poeta Thiago de Mello, aos 95 anos; leia poemas, veja vídeo dele declamando 'Os Estatutos do Homem' Thiago de Mello, poeta que celebrava a Amazônia, morre aos 95 anos Morre poeta amazonense Thiago de Mello aos 95 anos
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